Envelhecimento Normal

Envelhecimento Cognitivo Normal

Prof. Dra. Monica Yassuda

O envelhecimento está associado a alterações em todos os sistemas e órgãos do corpo humano. O cérebro também sofre alterações importantes como: 1. Morte das células nervosas (neurônios), o que acarreta em uma diminuição no volume e peso cerebral; 2. Diminuição na concentração cerebral de neurotransmissores, como a serotonina e a acetilcolina importantes para o humor e para novas aprendizagens e o comportamento motor, respectivamente; 3. Aumento na quantidade de alterações microscópicas no cérebro, como os emaranhados neurofibrilares e placas senis. Estas alterações no cérebro, aliadas às mudanças que ocorrem na visão e audição, geram algumas mudanças nas principais funções mentais, como a memória, a linguagem, as funções executivas e visuoespaciais, mesmo na ausência de doenças neurológicas. Um achado universal que afeta todas as funções é a diminuição da velocidade de processamento de informações. Assim, pessoas idosas precisam de mais tempo para aprender novos dados, para lembrar-se de informações e realizar ações rotineiras. A seguir, apresentamos um resumo das alterações cognitivas que são observadas em pessoas idosas saudáveis.

A memória subdivide-se em memória de curta e longa duração. A memória de trabalho, um aspecto da memória de curta duração, responsável pela manutenção e processamento simultâneos de dados sofre alterações no envelhecimento. Assim, pode tornar-se mais difícil realizar cálculos mentais, solucionar problemas do cotidiano que envolvam muitos aspectos, ordenar mentalmente tarefas a serem realizadas. São observadas também mudanças na capacidade de memorizar, ou seja, na memória episódica, um aspecto da memória de longa duração. Com o envelhecimento, pode ficar mais difícil realizar a codificação profunda de novos dados, envolvendo detalhes do contexto físico e temporal. Pessoas mais velhas precisam ter maior exposição às novas informações.

A repetição, as estratégias de memórias e as pistas emocionais podem facilitar a memorização.

Quanto à linguagem, observa-se que os idosos saudáveis tendem a: 1. Usar várias palavras o invés de optar pelo substantivo ou adjetivo alvo; 2. Descrever a função do objeto ou suas características, ao invés do objeto em si; 3. Ter dificuldade com a compreensão e produção de sentenças complexas, a organização e a precisão do discurso. Estas alterações não devem causar dificuldades na realização de atividades diárias, sociais ou ocupacionais.

O conceito de funções executivas está associado a habilidades como formular um objetivo, planejar e executar ações de modo eficiente, avaliar e corrigir o desempenho. No cotidiano, estão envolvidas com a estimativa de tempo, capacidade de alternar entre duas tarefas, ordenar ações, controlar impulsos e ações inadequadas. Idosos saudáveis não apresentam alterações significativas nestas funções que são essenciais para a realização das atividades diárias e para a autonomia, mas podem ocorrer lentidão e necessidade de uso de apoio externo, como listas de tarefas, agendas e alarmes.

As funções visuoespaciais encontram-se preservadas em idosos saudáveis, que na ausência de alterações visuais significativas ou compensadas, devem ter boa orientação no espaço físico, dentro e fora de casa. O manuseio de utensílios domésticos e ferramentas, assim como a utilização do espaço de uma mesa ou folha de papel estão preservados. Os idosos saudáveis devem vestir-se e imitar gestos e ações sem dificuldades.
Como síntese das alterações cognitivas em pessoas idosas, até os 60 anos, observa-se aumento no desempenho em habilidades que são fruto do acúmulo de processamento realizado no passado, como desempenho em tarefas de vocabulário e conhecimentos gerais sobre o mundo (associados aos conceitos de memória semântica e inteligência cristalizada). Entretanto, observa-se declínio linear após o início da vida adulta em tarefas que exigem foco atencional e transformações no momento da avaliação, como tarefas de memória episódica e memória de trabalho (associadas ao conceito de inteligência fluida).

Referências
Yassuda MS & Porto CS (2011). Avaliação Neuropsicológica (prelo). Em: Teixeira AL, Caramelli P (Orgs.). Neurologia Cognitiva e do Comportamento. Rio de Janeiro: Revinter, p. 43-54.
Yassuda MS, Viel TA, Lima-Silva TB & Albuquerque MS (2011). Memória e envelhecimento: aspectos cognitivos e biológicos. Em: Freitas EV, Py L. (Eds.) Tratado de Geriatria e Gerontologia. Rio de Janeiro: Guanabara, p. 1477-1485.